Durão Barroso - StakeHolders
mistério da contemplação
8 de jun 2022

Capitão Vacina

Crónicas de navegadores ao serviço da corte, de grande eloquência narrativa e discursos panegíricos de gentes e terras exóticas são coisas do passado.
O rei está morto, mas o poeta não. Hoje, esta figura lusófona serve de casa de acolhimento a todos aqueles que, com um propósito servem a *cousa da nação.*
Curiosamente, o Poeta encontrou nas crónicas uma forma de continuar, na atualidade, a afirmar a sua "portugalidade mercantilista" em terras que há muito não lhes pertence. Mutatis Mutandis , o Poeta apropria-se da estratégia comunicativa das crónicas, altera a forma mas mantêm o propósito.
Para cumprir este propósito é necessário encontrar o navegador, o escritor, o prosador, o cronista, capaz de escrever coisas burlescas, adulteradas e impuras que permitam entreter o leitor e, ao mesmo tempo, respeitar as intenções do Poeta que o acolhe.
Infelizmente, o que não falta por terras outrora ultramarinas, são escritores-cronistas que se submetem às exigências do Poeta e, com mão fluida e escrita lamecha, lá redigem o famigerado relato encomendado.

viagem 1

Para que o cronista cumpra as orientações do Poeta, é lhe apresentado um roteiro ao qual terá que cumprir escrupulosamente, sob pena do *negoce não se concretizar.*
Num exercício cómico-trágico, vejamos o conteúdo imaginado de um roteiro para a criação de uma crónica crioula:

• O cronista, de visita à cidade, deve citar escritores e outras personalidades de renome que se expressem em português e que tenham de certo modo contribuído para a afirmação da portugalidade além mar.
• Deve referir locais turísticos e "instagramaveis", que subrepticiamente demonstrem a presença dos países irmãos;
• Procurar ilustrar situações quotidianas que embelezem a narrativa dando-lhe um ar de simplicidade disfarçada e honestidade transvestida;
• Evitar, senão mesmo, obliterar no seu texto aspetos que possam levantar questionamentos incómodos e politicamente proibidos, sobretudo no que diz respeito a atividades económicas ligadas à agropecuária e pescas;
• Evitar questionamentos identitários e outros de cariz racial;
• Distanciar-se de assuntos relacionados com migrações e as relações com o continente europeu;
• Nunca salientar, nem que seja de uma forma metafórica, problemas relacionados com a habitação das populações mais carenciadas ou outros atropelos urbanos.
• Negligenciar assuntos relacionados com desequilíbrios e clivagens sociais.
• Por fim, nunca esquecer que a sua passagem, como cronista pela cidade, é meramente circunstancial e tem como único propósito servir o mercado e agradar ao Poeta e o seu séquito.

Respeitadas as orientações do roteiro, certamente o cronista convidado, redigirá um relato deturpado e impuro, cheio de clichés, que nada contribuirá para a compreensão da identidade da cidade. Pior, criará uma imagem mítica e alegórica que desrespeita a cultura de um povo, os seus hábitos e costumes, as suas aspirações e anseios.
Concluída a crónica, ainda no quarto de hotel, o escritor-cronista submete à apreciação do Poeta. Assim que aprovada a tristemente afamada crónica, é difundida pela máquina de propaganda mercantilista sob a égide de grandes empresas literárias e algumas improváveis... panificadoras.

Cidade da Praia, junho 2022

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